Até 2010, o Comitê Coordenador da RTS se comprometeu em atender 15 mil
famílias com as tecnologias de captação de água de chuva, voltadas para a
produção, do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Liderada pela ASA,
a fase piloto do Programa prevê a construção de 1.497 unidades de
tecnologias a partir de uma estrutura executiva ampla, participativa e
descentralizada.
Lançado pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) em abril de
2007, na comunidade de Lajedo de Timbaúba, em Soledade, no Cariri
paraibano, o P1+2 tem como objetivo garantir o aproveitamento e o manejo
sustentável da água da chuva para a produção de alimentos e criação de
pequenos animais. Para chegar lá, o Programa prevê a construção de
tecnologias já desenvolvidas e experimentadas pelos/as agricultores/as
do Semi-Árido para o armazenamento dessa água, bem como a realização de
visitas de intercâmbios e a sistematização de experiências.
Finalizada a fase demonstrativa, apoiada pela Fundação Banco do
Brasil e pela Petrobras, o programa entrou em uma nova etapa, conhecida
como projeto piloto. Ele terá investimentos de R$ 15,5 milhões oriundos
do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e da
Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba
(Codevasf). Os recursos serão aplicados na construção de 1.497
tecnologias, sendo 1.146 cisternas calçadão, 143 barragens subterrâneas e
208 tanques de pedra, beneficiando 3.369 famílias. Também serão
inseridas ao escopo do projeto 500 bombas d'água popular (Bap), cuja
construção deve beneficiar 6 mil famílias.
Para a execução do projeto piloto, a ASA conta atualmente com 13
Unidades Gestoras Territoriais (UGTs), que se debruçam sobre 60
microrregiões do Semi-Árido. Selecionadas em chamadas públicas, cada uma
dispõe de sete pessoas, sendo um coordenador, um gerente e um auxiliar
administrativo, além de três animadores de rede e um comunicador
popular. Já são duas no Piauí, uma no Ceará, três em Pernambuco, uma em
Alagoas, uma em Sergipe, três na Bahia e duas em Minas Gerais. Este mês,
a ASA abriu seleção pública para habilitar mais 13 UGTs.
Na prática, as UGTs recebem os recursos e diretrizes da Unidade
Gestora Central (UGC) e ficam responsáveis pela execução de base. Isso
significa promover as capacitações e os intercâmbios, bem como mobilizar
as comissões municipais. Bases do programa, cada comissão municipal é
formada por, pelo menos, cinco organizações locais associadas à ASA.
Embora a UGT selecione as regiões prioritárias para a implementação do
P1+2 em seu respectivo território, são as comissões municipais que
decidem pelas famílias que receberão as tecnologias em cada município.
“Não é a gente que decide o local exato de cada tecnologia. São os
próprios agricultores e instituições daquelas comunidades, que
participam do início até o final da implementação”, explica Barbosa.
Aliás, as comissões municipais “ativadas” pelo P1+2 já estão formadas
pelo menos desde a implementação do Programa Um Milhão de Cisternas
(P1MC). Como a ASA já chegou a 1.073 municípios do Semi-Árido, as
possibilidades de mobilização comunitária para o P1+2 são gigantescas.
“Com isso não precisamos duplicar as ações, mas ativar pontos de
organização que já existem”, explica Barbosa.
A Cáritas Brasileira, que faz parte da ASA, participa diretamente do
processo – as Regionais de Minas Gerais, Ceará, Piauí, Nordeste 3, além
da Cáritas Estância de Sergipe e a Cáritas da Diocesana de Pesqueira
(PE), já são UGTs do programa. “É um processo importante, porque assim a
gente consegue efetivamente mobilizar e formar as organizações na base,
o que dá mais capilaridade ao próprio P1+2”, explica Neilde Lima,
representante da Cáritas e coordenadora de uma das três UGTs de
Pernambuco. Atualmente, sua UGT trabalha diretamente com dez comissões
municipais.
Multiplicação
De olho na descentralização, uma das estratégias centrais para a
multiplicação do P1+2, segundo Barbosa, é o envolvimento dos próprios
agricultores na difusão das tecnologias. “A formação de agricultores
experimentadores tem o intuito de demonstrar que o produtor pode ser um
pesquisador e um difusor de seus conhecimentos”, afirma.
Na fase demonstrativa do P1+2, foram realizados 144 intercâmbios
entre agricultores. Para o projeto piloto, estão previstos 26
intercâmbios interestaduais e 52 intermunicipais. “Agricultores produzem
conhecimento e são portadores de experiência. Por isso temos trabalhado
na formação de uma rede de agricultores experimentadores para que eles
possam trabalhar como multiplicadores”, completa.
Um deles é o agricultor Manoel Gavião, batizado Manoel Severino dos
Santos, que nem se lembra mais quantas viagens foram a comunidades
agrícolas da Paraíba e de outros estados do Semi-Árido. Em cada uma
delas, sua missão era a mesma: trocar experiências com a
responsabilidade de devolver aos colegas da região
O que há de novidade nas andanças de Gavião e tantos outros agricultores experimentadores, dizem especialistas ouvidos pelo Portal da RTS, é que eles não só incorporam e adaptam melhor o conhecimento científico na hora da reaplicação, como também apostam em seus saberes para propor novas tecnologias e práticas agrícolas a partir de suas próprias realidades locais. “De 10 mil anos atrás, quando nasceu a agricultura, até 1960, o conhecimento era gerado assim: pelo agricultor, que se baseava no modelo da própria natureza”, alerta a assessora técnica da ONG Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (ASPTA), Paula Almeida.Das andanças, Manoel já levou à sua propriedade, no município de Picuí (PB), alternativas como o açude, a cisterna, a barragem subterrânea, a cerca viva e o chamado canteiro econômico, no qual reaproveita para o cultivo a água utilizada na própria casa. Além do aprendizado na recuperação de áreas degradadas e no plantio de árvores nativas, também há por lá a mandala, de seis metros de diâmetro, que permite o uso da água de um tanque de criação de peixes para a irrigação de nove canteiros destinados à plantação de frutas, verduras, legumes e forrageiras. “Eu tinha uma propriedade seca. Hoje tenho água para até um ano e meio. O que eu posso, levo aos outros com prazer”, diz o agricultor experimentador.
Quem assina embaixo é o agricultor-experimentador José Aparecido dos
Santos, o Cidinho, dono de um sítio de 11 hectares a 45 km de Ouricuri
(PE). A peregrinação de mais de 15 anos por diversos estados em busca de
novos conhecimentos, explica, não permitiu apenas que ele adaptasse em
sua propriedade tecnologias como a curva de nível, a cisterna de placa e
o sistema de irrigação por gotejamento para aproveitar a “água contada”
na barreira trincheira que ergueu com as próprias mãos. Tampouco as
viagens serviram somente para que reinventasse uma prática antiga da
região: o uso da cobertura morta (restos de cultivo) para evitar a
erosão e a transpiração da água numa das regiões em que menos chove no
Brasil. “A fitoterapia também era uma coisa forte para a gente, da nossa
cultura, e que foi sendo esquecida na região. Hoje usamos de novo a
aroeira, o angico, a amburana e o juazeiro”, celebra.
Conheça as tecnologias implementadas pelo P1+2 durante a fase demonstrativa
Cisterna adaptada para a roça:
É formada por uma área de captação (para captar água das chuvas que
escorre dos desníveis do terreno ou de áreas pavimentadas como um
calçadão), por um reservatório de água (que deve ser bem maior que a
cisterna para o uso humano) e um sistema de irrigação (que pode ser
operacionalizado manualmente ou por sistemas de bombeamento e
gotejamento). Com a água de uma cisterna de 50 mil litros (outra que não
a de consumo doméstico) é possível irrigar um quintal produtivo de
verduras, regar mudas ou ter água para galinhas e abelhas.
Barragem subterrânea:
Conserva a água de chuva infiltrada no subsolo nas áreas de baixios,
fundos de vales e áreas de escoamento das águas de chuva, mediante uma
barragem em profundidade cavada até a camada impermeável do solo. Ela
tem um grande impacto sobre a estabilidade do sistema produtivo,
aumentando a resistência em períodos de seca, quando a área da barragem
parece uma ilha verde no meio da caatinga seca. Ela garante a autonomia
no que se refere à alimentação, permite a criação de um número maior de
animais e diminui a dependência de insumos externos.
Tanque de pedra:
Eles possibilitam o armazenamento de grandes volumes de água captada
nos lajedos, aproveitando a inclinação natural neles existentes. Em
alguns locais, é necessário construir paredes ou muretas facilitando a
contenção ou o direcionamento da água para os tanques e conseqüentemente
maior acumulo de água. É uma das inovações técnicas que tem como base a
valorização do conhecimento dos agricultores familiares nas estratégias
de uso e gestão da água. O tanque de pedra armazena água para os gastos
domésticos, para alimentação animal e irrigação de um "quintal
produtivo" de verduras.
Barreiro trincheira:
São tanques profundos e estreitos, cavados em subsolo cristalino com
um ou mais compartimentos e de mais de três metros de profundidade, com
fundo e parede de pedra (piçarra), que não deixa a água se infiltrar.
Pequenas valetas são construídas para direcionar a água de enxurradas
para esses compartimentos. É aconselhado fazer pequenas barreiras de
pedras dentro do desvio da água para reter a areia. Por ser estreito e
fundo sua superfície de evaporação é menor. O barreiro trincheira
armazena água para os animais e para irrigação de um "quintal produtivo"
de verduras.
